segunda-feira, 30 de junho de 2008

Dialogando acerca da Pesquisa e Prática da Educação
por Rildo Ferreira


I – Introdução
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Este texto tem por finalidade abrir um diálogo acerca da disciplina Pesquisa e Prática da Educação numa tentativa de identificar sua importância na formação acadêmica, levando em consideração os sujeitos que dela se utilizam, quer seja na mediação na práxis pedagógica, quer seja beneficiário dela.

Considerando o período da aplicação do nível II da disciplina, vou fazer um resgate dos períodos que antecedem este momento fazendo uma análise histórica para melhor compreensão da discussão acerca do assunto, aqui sim, tentando identificar as falhas no processo de formação acadêmica para, por fim, fazer alguns apontamentos que, ao meu ver, alcançariam melhores resultados sob o ponto de vista de quem aprende.

É preciso esclarecer que este trabalho não se ateve às opiniões de seu autor, mas procurou saber a opinião dos colegas de turma [e de outras turmas] a fim de fundamentar a análise pluralizando as propriedades críticas. Para que isto pudesse ocorrer, redigi um questionário e o distribuí a 62 colegas universitários, sendo em duas turmas no Campus Méier e uma turma no Campus Queimados da Universidade Estácio de Sá.

Vamos ao diálogo.


II - Os primeiros períodos na Universidade
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Chegar à universidade é um sonho que todo homem e toda mulher acalenta desde a sua juventude. Até bem pouco tempo este sonho era um privilégio de poucos. Estes já privilegiados por sua boa condição econômica. Grande parte dos que alcançavam a universidade dispunham de todo o tempo necessário para um aprendizado sistêmico, e assim, mesmo depois da conclusão do ensino médio, passavam um bom período em cursos pré-vestibulares intensivos que os distanciavam em vantagem dos que necessitavam trabalhar e pouco dispunham para o estudo.

Não quero discutir o mérito da questão, mas preciso dizer que em boa hora, numa tentativa de melhorar o nível de escolaridade dos brasileiros e brasileiras, o governo federal lança um programa [PROUNI – PROGRAMA UNIVERSIDADE PARA TODOS] para garantir bolsas de estudos integral e parcial, estas de 50% (cinqüenta por cento) do valor das mensalidades, para estudantes que concluíam o ensino médio nas escolas públicas levando-os ao ensino superior. Eis que me encontro beneficiário de bolsa integral deste programa.

Chegar à universidade foi impactante. Ora, eu esperava uma universidade viva, com professores e alunos produzindo conhecimento. Eu também esperava professores que adotassem uma postura didática que partisse da realidade dos alunos para se alcançar o conhecimento científico. O discurso era este! Mas, como disseram Barreto e Barreto (in GADOTTI e ROMÃO, 2007)
  • ...90 % dos educadores brasileiros, provavelmente por influência de Paulo Freire, dizem em seu discurso que o educando é sujeito no processo educacional. E no entanto quase todos que dizem isto têm uma prática educativa na qual tratam os educandos como objetos no processo (p. 82).
Ocorre então o primeiro choque cultural, como disseram alguns colegas em suas respostas ao questionário. Ora, vindos do ensino médio, de escolas públicas ou privadas, do meio de um público cuja língua falada é a mais popular possível, os professores, em sua maioria, adotam uma linguagem técnico-científica sem explicar o seu significado.

Bem, diriam uns, mas o aluno é universitário e nesta fase cabe à ele ser um pesquisador constante. Aí eu insisto na questão já abordada em parágrafo anterior. Quem está na universidade privada e estudando à noite é um operário que tem o seu dia ocupado com o labor. É verdade que ele precisa encontrar tempo para o estudo e dedicar-se, em parte, a pesquisas de caráter epistemológico. Mas daí o professor universitário procurar manter o distanciamento do aluno universitário é uma atitude que denota repugnância pela práxis educativa que ele adota no discurso. Este foi outro impacto na cultura acadêmica.

Lembro-me dos primeiros trabalhos produzidos a pedido dos professores. Quando foi pedido um fichamento sobre determinado capítulo de um livro, e sem as explicações pertinentes do que vem a ser um fichamento, eis que o resultado foi uma mescla de fichamento comentado, resenha e resumo. Não era possível caracterizar entre um e os outros modelos de trabalho acadêmico. Com efeito, não nos era possível fazer um fichamento como devia ser feito haja vista que não era do nosso domínio tal conhecimento. Talvez por isso uma colega ao responder o questionário sobre a importância da Pesquisa e Prática da Educação na sua formação ela diz “É uma disciplina de vital importância no currículo, pois nos ensina e nos orienta como confeccionar nossos trabalhos acadêmicos”. Esta resposta limitadíssima para conceituar a propriedade da disciplina tem uma razão de ser, já que no desenvolvimento dela é preciso conhecer como descrever uma pesquisa realizada, logo, o aluno tem que aprender a fazer fichamento, resumo, resenha e artigos. Mas a disciplina não se limita a ensinar como fazer estes trabalhos.

Dos 62 questionários distribuídos apenas 26 voltaram. Destes, somente 4 responderam que pensaram em desistir. A superação, segundo eles, posso resumir assim, se deu por conta da participação dos próprios colegas de turma que os ajudaram em novos conhecimentos. Um deles disse ter sentido brutal dificuldade em produzir os trabalhos acadêmicos. Os primeiros foram manuscritos. Ele não possuía e nem sabia utilizar um computador. Ora, mesmo com a universidade oferecendo laboratórios de informática para pesquisa e produção de material acadêmico, ele foi um dos que não utilizou deste recurso no primeiro período. E porquê? Porque não lhe garantiram um ensinamento da utilização dos recursos disponíveis. Ele então se sentiu inferiorizado em relação aos outros que já dominavam esta tecnologia. A superação só se deu quando foi capaz de expressar este sentimento a um dos colegas da turma. Este passou a ajudá-lo na utilização do laboratório de informática e das muitas ferramentas que esta tecnologia proporciona aos seus usuários.

Mas isso não foi suficiente. O trabalho está pronto, mas e agora? Onde imprimir o produto acadêmico? Eis que a instituição apresenta duas fotocopiadoras, uma delas imprime os trabalhos acadêmicos, mas para isto, o pretendente deve dispor de recursos financeiros que garanta o pagamento de R$ 0,50 (cinqüenta centavos) por folha impressa. Então o aluno descobre que não pode contextualizar, teorizar, aprofundar a discussão do seu trabalho acadêmico porque pode não dispor de recursos para apresentá-lo ao professor. Então ele precisa economizar na produção acadêmica para economizar recursos.

Então os que responderam ao questionário viram, e eu os acompanho, a necessidade desta disciplina a partir do primeiro período tal a sua importância. Não só por sua propriedade de formar a todos e a cada um em pesquisador produtor de conhecimentos, mas também por sua praticidade na formatação do universitário para encarar com mais disposição o desafio acadêmico.

Entre os meus entrevistados teve quem pedisse mais liberdade para abordar os temas trabalhados na disciplina. Eu não compartilho deste princípio. O maior desafio é apresentar resultados com base naquilo que foi pedido. É claro que se parto de algo que me fascina o resultado pode ser brilhante, fundamentado, com bastante clareza e objetividade. Mas desenvolver a capacidade de trabalhar com aquilo que não é do nosso conhecimento é exatamente produzir um novo conhecimento. Aquilo que me fascina eu, de algum modo, já conheço. Aquilo que até então não me atraía eu deixava de lado, logo o desconheço. A academia deve proporcionar a todos e a todas conhecer o desconhecido. Por isso considero que o desenvolvimento da disciplina deve mesclar entre temas pré-definidos e temas livres para a pesquisa do aluno. Aqui eu não desprezo os saberes do educando. Aliás, eles precisam ser trabalhados para que este saber seja um saber cientificizado. Mas um modo de conhecer o desconhecido não elimina o outro.

Paulo Freire (1921-1997) sempre demonstrou acreditar na educação com a esperança que jamais abandonou como uma pedagogia voltada para todos e todas que ousam ensinar-aprendendo. Sempre afirmou que ensinar exige uma rigorosidade metódica, não a prática transferidora de conhecimentos, mas com uma didática que permite que os educandos vão se transformando em sujeitos da construção do saber ensinado, atribuindo méritos ao educador/educadora que ensina o pensar certo. Isto posto, diz, ensinar exige pesquisa. “Pesquisar para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade”, e pesquisar parte do pressuposto de uma curiosidade inocente, do senso comum que propõe uma superação o que implica uma rigorosidade metódica, transitando da curiosidade ingênua para uma curiosidade epistemológica. Logo, faz-se mister o respeito aos saberes do educando, “saberes construídos na prática comunitária” (Freire, 2005). E este ensinar a pensar certo, a absorver para aplicar a rigorosidade metódica são propriedades da Prática e Pesquisa da Educação. Sem esta disciplina, nossa formação acadêmica estaria comprometida com uma lacuna vazada no currículo.

III – Conclusão
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Para efeitos de conclusão desse diálogo, preciso reconhecer que alguns colegas têm razão para reclamar a presença da disciplina a partir do primeiro período com a adoção de um didática apropriada para preparar o intróito ao ensino acadêmico. Penso ainda que, não somente esta disciplina, mas a Informática Aplicada à Educação assim como Português I. Ora, a Prática e Pesquisa da Educação no primeiro período teria como elemento básico ensinar o que vem a ser fichamento, resumo, resenha, artigo e outros trabalhos acadêmicos, isso possibilitaria que os níveis subseqüentes passassem a adotar uma prática de pesquisa propriamente dita. No caso das outras disciplinas como Informática Aplicada à Educação, esta objetivando preparar aqueles que ainda não dominam os novos recursos tecnológicos, para um melhor aproveitamento da produção acadêmica. Do mesmo modo o Português I. Ora, no primeiro período deparamos com uma cultura distante da nossa realidade. Como disseram alguns dos meus entrevistados, muitos termos utilizados não fazem parte do vocabulário dos alunos do ensino médio, nem da prática diária. Logo, ao ouvi-los, ficaram perplexos e desorientados. Então, palavras como dialética, paradigma, epistemologia, etimologia, ética, entre outras, seriam colocados à discussão para o aprendizado da aplicação de cada uma delas no meio científico.

Sem estas questões preparatórias, o aluno pode até aprender, e vai! Mas funcionará como um carro cujo motor de arranque está com defeito. Só "pega no tranco". Daí ocorre um desnível. Uns se adaptam mais rapidamente que outros e, estando na mesma turma sente-se prejudicado por aqueles que não se adaptaram ainda. Estes, por sua vez, se sentem inferiorizados e distanciados da realidade acadêmica.


IV – Referências Bibliográficas
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GADOTTI, Moacir; ROMÃO, José E. (Orgs). Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta – 9. ed. – São Paulo : Cortez : Instituto Paulo Freire, 2007. – (Guia da escola cidadã ; v. 5)

FREIRE. Paulo. Pedagogia da Autonomia [saberes necessários à prática do educando] Rio de Janeiro. DP&A, 2005.


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Um comentário:

Leila Viana disse...

Eu me senti exatamente assim.
Comecei a fazer faculdade de Pedagogia, através do sistema EAD, em Outubro de 2010. 14 anos depois de concluir o Ensino Médio Técnico em Administração.
Na ocasião, não tinha computador em casa, logo, utilizava o computador e impressora do trabalho. Escolhi o método EAD porque, através deste método, obtive desconto na mensalidade por ter concluído o antigo segundo grau todo em rede pública de ensino e por ter mais de 30 anos. Sem contar que, como eu faço o meu horário, tenho mais disponibilidade para estar com meu filho e evito despesas extras como passagem, lanche, Xerox, choppinho com amigos na hora da saída, etc.
Eu compareço a sede da minha instituição para fazer as provas ou para resolver questões administrativas na secretaria. Quando fiz a matrícula, a minha instituição permitiu que eu escolhesse uma unidade para que fosse a sede. Em dias e horários pré-determinados, eu posso assistir a algumas aulas presenciais ou acompanhar pelo webcam. No SIA (Sistemas de Informações Acadêmicas) contamos com um Messenger, com os tópicos e com as trocas de mensagens.
Mas eu senti – e muito – as dificuldades iniciais. Também pensei em desistir ou em trocar. Mas nem todas as carreiras estão disponíveis pelo método EAD e havia diferença, na ocasião, considerável de valor nas mensalidades entre o EAD e as turmas presenciais (até mesmo devido à influência do turno). Além de ter ficado muito tempo sem estudar por várias razões (desemprego, casamento, nascimento do filho, divórcio e retorno ao mercado de trabalho com salário aquém das expectativas), a linguagem utilizada, para mim, era muito inovadora. O que me ajudou foi a experiência pessoal (sou mãe e também trabalho como voluntária com crianças de 9 e 10 anos desde 2007) e a experiência profissional (trabalho com atendimento ao consumidor desde 2003 nas mais variadas formas de atendimento: telefônico, virtual e pessoal). Acredito também que algumas qualidades inatas como, por exemplo, gostar de ler e de observar, contribuíram para que eu prosseguisse.

Leila Viana
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