terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Infâncias de ontem e de hoje:
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diferenças determinantes
por Rildo Ferreira





Quando cheguei ao Rio de Janeiro em 1970, não possuía ainda faculdade para interpretar a brutal mudança que ocorria em minha vida. Minha pequeninice no nordeste mineiro foi traumática. Não me sinto feliz em recordar este período de minha vida. Mas no Rio, mais precisamente na baixada fluminense, o que me recordo com muita precisão era o calor que nos fazia suar em “bicas”.

Minha mãe puxava 6 filhos, 5 homens e uma mulher. A bagagem era o que menos importava. Aconteceu um episódio na estação de Japeri do qual me recordo com certo humor: lembro-me que ao descer do trem que fazia Minas-Rio teríamos que embarcar noutro que nos levaria ao bairro de Austin, em Nova Iguaçu. Ao fazer esta baldeação parte embarcou no trem e parte ficou na estação. Foi uma gritaria de assustar a todos. Sorte que o maquinista condutor da composição ouviu o burburinho e parou o trem para que os que ficaram na estação pudessem embarcar.

Da minha infância já na região metropolitana do Rio de Janeiro tenho boas recordações. Posso relatar algumas brincadeiras que os meninos da minha idade participavam. Nada tecnológico. Nossos carrinhos eram feitos com um pedaço pequeno de madeira, uma latinha de sardinha aberta na parte superior e rodinhas feitas com cabo de vassoura. Quem fazia? Nós mesmos. Um terreno baldio ao lado da minha casa nos servia de campinho. Muito pequeno, já que as condições não eram boas. Ao redor do campo a vegetação aguçava nossa imaginação. Tanto que aos fundos do campinho fizemos uma barraca que só cobria a visão, já que a cobertura era feita com o próprio capim e permitia a passagem de água da chuva. Mas aquela minúscula cabana foi fundamental para as nossas criativas histórias que eram narradas ao iniciar as noites de lua cheia.

A lua fazia nossa rua parecer um chão prateado. Visto de cima, era um viés branco que cortava uma escuridão. Não tinha luz elétrica, mas a brancura da areia que cobria a rua era suficiente para manter uma certa claridade permitindo o vai-e-vem das pessoas sem correr o risco de um sinistro. Foi ali que assustamos muita gente. Peraltas e inconseqüentes, amarrávamos uma linha numa “tira” de pano e puxávamos, fazendo parecer uma cobra atravessando a rua. Algumas vezes nos denunciávamos às gargalhadas face ao inusitado do acontecimento. A cabana de capim foi palco de rodas de “contos fantasmas”. Nas noites muito escuras, fazíamos lanternas com lata de leite em pó e pequenos pedaços de velas. Como era isso? Do lado da tampa da lata ficava aberto. No fundo da lata, furávamos completamente com prego. Com arame fazíamos a alça. Dentro da lata, um pequeno pedaço de vela aceso projetava um clarão fantástico, era o que nos iluminava no interior da cabana de capim.

Com esta mesma lanterna saíamos a capturar rãs nos alagados em dias de chuva no verão tipicamente carioca. Muitos dos bonecos que se tornavam nossos super-heróis eram criados por nós mesmos. Uma bolinha de gude (vidro), um pedaço de pano e pequenos gravetos se tornavam cabeça, vestes e membros. Dessa nossa imaginação, muitas brincadeiras esgotavam nossas energias mas nos tornavam felizes crianças.



Não quero narrar a parte que me faz querer esquecer minha infância a partir de 1970. Parte que não faz parte das crianças de hoje. Aliás, nada do que vivi na minha infância faz parte da infância das crianças hoje. O que determina essa brutal diferença é exatamente isto: se uma criança quer um super-herói basta ir ao bazar de utilidades e comprar um. Quer um carrinho? Vai lá e compra um que já vem com outros dois complementares. Quer ouvir uma história? Liga a TV e... Ops!...

Tem uma dupla de meninos que apresentam uma programação supostamente infantil na TV, promovendo brincadeiras entre aqueles que ligam para a emissora, oferecendo prêmios aos participantes que oscilam de alguns bonecos à celulares e PlayStation. Eu já paguei uma conta de telefone em que mais de 120 reais foi minha pequena Eduarda de 5 anos tentando falar com aqueles dois instrumentos da exploração da inocência infantil. Como não foi possível impedir que ela assistisse ao programa, bloqueei o telefone para evitar sustos como este.

Além deles, uma série de desenhos animados saltitam nas telinhas. Uns bonequinhos supostamente orientais gritando, pulado, sacando espadas e matando os inimigos. Daí uma psicóloga diz que o garoto quando desenha uma espada enorme está tentando competir com o pai a preferência da mãe, o que segundo Sigmund Freud caracteriza o complexo de Édipo. Coisa nenhuma. Ele desenha uma espada enorme porque é o que ele vê na TV o tempo todo. Logo, se o que é grande é superior, ele tenta desenhar uma bem grande para não ser inferior ao seu imaginário inimigo.

Bem, para finalizar, há que se comparar as características de cada período e ver que em ambos os pais estão ausentes. Entretanto, no primeiro período não tínhamos a influência da TV de modo negativo. As crianças tinham mais espaços para brincar e a escassez de brinquedos fazia cada menino ou menina um criador de seus entretenimentos. Já no segundo período tanto a TV quanto as facilidades de encontrar seus brinquedos diminuíram o campo imaginário das nossas crianças. Esse campo imaginário foi fundamental para que nós, as crianças do primeiro período, inventássemos nossas próprias histórias de amor, de terror, de aventuras... Hoje... Bem, já tentou tirar uma criança do vídeo game para lhe contar uma história?

Um comentário:

Míriam disse...

Excelente texto.
A referência à incapacidade da psicologia de adaptar-se à gigantesca influência da TV é de extrema pertinência.
Muitos se esquecem que Freud mapeou o inconsciente antes deste campo ser dominado pela programação televisiva.
Os meninos hoje são tão envolvidos por games e TV que seu único desejo é que o chato do Édipo leve a Jocasta para jantar e parem de encher com os gritos de "saia já desse computador".